domingo, 21 de maio de 2006

Apresentação

  • Este blog visa apresentar meus comentários a algumas partes de meu livro: Auxílio luxuoso: samba símbolo nacional, geração Noel Rosa e indústria cultural (São Paulo: Annablume, 2003).
  • O objetivo é tornar o livro mais acessível, capaz, portanto, de atingir um público cada vez maior e mais heterogêneo, e também apresentá-lo como obra "em evolução", ou seja, que após sua publicação impressa já foi reeditado muitas vezes em Word2000 no meu computador pessoal.
  • Como autor, o © (copyright) do livro me pertence. Contudo, repito, a versão das partes aqui apresentadas estará significativamente modificada em relação ao texto do livro impresso, sobretudo devido a atualizações bibliográficas, sugestões de leitores etc.
  • Como a entendo e propago, a "história brasileira da música popular" está calcada em quase tudo que os chamados "críticos da MPB" já escreveram e que se constitui na "história 'semi-oficial' da MPB". Contudo, o certo é que a HBMP procura enfaticamente diferir da "história da MPB" porque o fio condutor daquela está centrado na "sociologia da cultura" de Pierre Bourdieu.
  • Quero crer que Bourdieu esteja sempre presente nas entrelinhas de todo meu trabalho tanto com música popular como com literatura; umas vezes de forma bastante leve, outras vezes mais contundentemente.
  • Já que as preocupações de Bourdieu eram quase sempre em torno do "campo de produção cultural restrita" (literatura, artes plásticas, música erudita) e não do "campo de produção cultural 'em larga escala'", ao qual se vincula a música e todas as artes ditas populares que fizeram seu ninho no ambiente urbano das grandes cidades européias a partir, mais ou menos, de meados do século XIX, tenho plena consciência de que Bourdieu jamais teria escrito sobre música popular. Por que, então, utilizar-me de sua teoria e de seus conceitos para formular uma "história brasileira da música popular"? Por ora, a resposta é bastante simples e humilde: Por que não?
  • A transformação estético-artística por que passou a Europa urbana entre dois períodos histórico-literários como o romantismo e o realismo desencadeou transformações semelhantes em quase todos os quadrantes urbanos do mundo ocidental. No Brasil, a revolução romântica, que já havia "se atrasado" em pelo menos cinquenta anos, nos pegou literalmente de calças curtas no nosso costumeiro amor pelas coisas rurais, que era de onde saíam (e ainda hoje saem) nossas ricas commodities de país agro-exportador. E, como era de se esperar, fomos à reboque do que acontecia nas grandes metrópoles européias -- tanto que muitos de nossos principais intelectuais dessa época podem ser tranquilamente encaixados como "de transição" numa possível "história brasileira da inteligência", aspeada aqui talvez para respeitosamente se contrapôr à monumental História da inteligência brasileira, de Wilson Martins.
  • No rastro do impacto causado pelos progressos tecnológicos urbanos foi que, no final do século XIX, nos chegaram, por exemplo, a gravação e a reprodução da voz humana e/ou de instrumentos musicais em cilindros e discos de cera.
  • Ao aportar por aqui, o fonógrafo, o cilindro e o disco de cera (ainda de face única) se constituíram instantaneamente em um progresso tecnológico de tal monta que, com a simples possibilidade da reprodução mecânica de sons, antes apenas imaginável, acabaria para sempre transformando, já início do século XX, a mentalidade tacanha da performance musical no Brasil. Isto além do espanto causado por uma máquina que reproduzia a voz humana a qual não os ouvintes simplesmente não acreditavam que saía da máquina e que, por isso, pensavam tratar-se de número de ilusionismo, uma "marca de fantasia" segundo informavam os cilindros e discos de cera.
  • No Brasil, o principal centro irradiador par excellance de tais progressos tecnológicos espantosos foi sem dúvida a cidade do Rio de Janeiro. Comercialmente falando, o nome mais importante no período de "instalação da novidade" foi mesmo o de Fred Figner que, com seu empreendimento comercial, a Casa Edison, registrada na Junta Comercial em 22 de março de 1900. A partir daí, Figner praticamente dominou, da maneira mais convincente possível, a comercialização de nossa música popular por uns bons vinte, trinta anos.
  • As matrizes dos cilindros e discos de cera eram apenas gravados no Brasil mas tinham que ser enviados à Europa para serem prensados, ou seja, fabricados, após o que eram mandados de volta ao Brasil para serem comercializados.
  • Em 1912, Figner foi o responsável direto pela construção da primeira fábrica de discos na América do Sul, a "Fábrica Odeon". A partir desse momento histórico, os discos puderam ser gravados e fabricados no Brasil. E assim, manejando todo o processo tecnológico da gravação e da fabricação de discos, estavam abertas entre nós as possibilidades de uma comercialização de música popular cada vez mais ampla. A fabricação de discos por aqui foi um salto definitivo no processo de consagração artístico-musical no Brasil.
  • Outra "revolução" que influenciou o crescimento do consumo de discos no Brasil foi, em 1927, o aporte do sistema eletromagnético de gravação de discos, que propiciou uma substancial melhora na qualidade da gravação e também a possibilidade do surgimento de um maior número de artistas que, por exemplo, não possuíam como requisito básico o "dó-de-peito" comum em tenores lírico-eruditos.
  • O primeiro artista no Brasil a gravar um disco pelo sistema eletromagnético foi Francisco Alves que, embora tendo começado a carreira artística ainda em 1919, estará por essa época iniciando certo perfil artístico-popular que lhe permitiu ocupar o espaço de maior e mais importante intérprete de canções populares. Isto durou praticamente até seu precoce falecimento em 1952, vítima de acidente automobilístico quando voltava de São Paulo para o Rio de Janeiro.

Um comentário:

elotrojavi disse...

Mi nombre es Javier Osorio y me enteré de su blog por la lista de IASPM. No he tenido oportunidad de leer su libro, pero me parece muy interesante lo que señala para el caso de Brasil. Yo trabajo sobre la historia cultural de la música chilena en el ámbito de la canción popular y masiva, por lo que me interesa el funcionamiento de la industria cultural en América Latina. ¿es posible que me envíe algún artículo sobre la conformación de la industria musical en su país?
Saludos cordiales,