quinta-feira, 21 de junho de 2007

Artigo no Estadão sobre A Construção do Samba, de Jorge Caldeira, com meus comentários no corpo do texto

OESP, 4/maio/2007
A Construção do Samba, de Donga a Noel Rosa
Estudo de Jorge Caldeira será lançado hoje, dia em que se completam os 70 anos de morte de Noel, reunindo dois textos complementares do autor
[Obs.: Meus comentários estão em itálico, entre colchetes]
Adriana Del Ré
A Construção do Samba, de Jorge Caldeira (Ed. Mameluco, 224 págs.), chega às livrarias hoje, dia em que se completam 70 anos de morte de Noel Rosa. Na verdade, o livro é a reunião de duas obras de Caldeira, lançadas em momentos diferentes, mas que, conceitualmente, são complementares.
Escrito em 1988, A Construção do Samba é fruto de uma dissertação de mestrado, defendida pelo autor no Departamento de Sociologia da USP, mas que, nesta nova versão, ficará livre de explicações acadêmicas, acerca da indústria cultural, da estandardização, entre outros aspectos. Mantém-se como texto base para o livro, acrescido de uma segunda obra, Noel Rosa, de Costas para o Mar, lançado em 1982 e reeditado agora na íntegra.
No cerne de sua tese, Caldeira destaca a idéia do grau de inovação envolvido na adaptação da música folclórica para a canção formatada do disco e do rádio. Traça esse processo de transformação e reconfiguração da música, dando crédito a seus devidos protagonistas. [Claro, essa "adaptação" não caiu do céu assim tão de graça como vc imagina nem Noel foi o primeiro a perpetrá-la, mas ele foi um dos q pavimentou, com mais segurança, a "rodovia" do sucesso musical (popularesco) com todas suas características eminentemente comerciais, q irão fazer parte do "repertório" das práticas usuais das gerações artísticas subseqüentes...] Dentre eles, o próprio Noel Rosa, que aparece como uma das peças fundamentais. [Noel foi “the right man in the right place at the right time”. É dele o retrato mais bem acabado de sua geração; daí eu ter batizado toda essa geração artística com seu nome...]
Segundo o autor, muito se bate na tecla sobre a origem tradicional e pobre dos nomes que ajudaram a construir o samba como o conhecemos hoje, como Donga, Pixinguinha, Sinhô, Noel e Ismael Silva. Algumas vezes, desqualificando-os; outras, enaltecendo-os pela origem pobre e, por isso, cientes da representatividade da figura popular. ‘Na realidade, são pessoas que desenvolveram tecnologia, criaram um tipo de música adequada àquela situação’. [Essa “tecnologia” sobre a qual vc fala não foi nem um pouco “desenvolvida” por eles; na verdade, ela veio toda prêt-à-porter do estrangeiro e foi simplesmente posta à disposição daqueles artistas através das então novíssimas tecnologias do disco e do rádio comercial. A concessão das rádios comerciais, por sinal, pertenciam às elites carioca e paulista, após terem sido devidamente “leiloadas” por decreto do “governo provisório” de Vargas... Dos artistas, só mesmo o grande talento pra perceber a “abertura” (ou melhor, a brecha) profissional proporcionada por aquelas novas “instâncias de consagração”, q os manteve, de acordo com Bourdieu, “na condição de dominados dentro do grupo dominante” – como, aliás, era de se esperar q assim fosse...]
É exatamente assim que Caldeira gostaria que fossem lembrados. ‘Eles sabiam que vender disco era fator de transformação: sairiam da condição de tradicionais para o conhecimento público’, observa ele. ‘Foram até a cidade e dominaram a tecnologia.’ [Melhor seria vc ter dito assim: Era como se eles já soubessem (ou tivessem um vago conhecimento) q vender discos seria "O" fator mesmo de transformação, pois eles não só sairiam mais definitivamente da condição de “tradicionais” (q, aliás, eles já não eram pq eram urbanos por natureza) para o ainda engatinhante (re-)conhecimento público de artistas popularescos como tb tornar-se-iam "profissionais" da música popular... Isso sim!]
O samba gravado é apontado pelo autor como ‘o grande culpado da transformação’. O início de tudo deu-se com Pelo Telefone (1916), primeiro samba registrado em disco. Na época da gravação, já foi confabulada uma polêmica: questionou-se se aquela música era, de fato, samba e se era o primeiro. Além disso, houve divergências em relação à sua autoria. Mauro de Almeida era autor oficial da letra e Donga, da melodia, mas Sinhô também entrou no páreo pela autoria da música.
Uma pequena amostra de que, em todo esse processo, nada foi tão simples assim. ‘São pessoas que fizeram uma construção muito complexa, sólida, que dura até hoje’. Eram atuações conscientes. Donga, por exemplo, tinha idéia de que estava fazendo um gênero de música popular para circular na cidade, com canções que deveriam ter uma certa duração e contar histórias interessantes. Já Pixinguinha elaborou as formas musicais do samba, com as quais estamos acostumados a ouvir até hoje.
Sinhô, por sua vez, criou o personagem do compositor popular e ele próprio conseguiu ser reconhecido como tal. ‘Filho da gravação elétrica’, Noel Rosa compôs pequenos retratos da vida urbana. ‘Isso agregou e complementou a construção do samba’. [Noel pegou o carro do bonde já em movimento; ele faz parte da primeira geração de artistas popularescos q pôde lidar com o disco e o rádio comercial combinados simbioticamente de forma mais integral, daí sua importância...]
Noel ajudou a enobrecer o papel do compositor. Na histórica rivalidade entre Noel e Wilson Batista, os dois divergiam sobre a representatividade do malandro. Em seu samba Lenço no Pescoço, Wilson Batista mostrava o malandro caricato e vadio. A resposta de Noel veio com Rapaz Folgado. ‘Para Noel, malandro é o cara que trabalha, canta samba, como se fosse o olhar do mundo’, afirma Caldeira. ‘Depois da briga entre Noel e Batista, ficou claro que compositor não é malandro’. [Ih, esse negócio da “polêmica” entre Noel e Wilson já foi longe demais...]
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[O fato é q o livro de J. Caldeira contém duas partes. A última parte ("Noel Rosa: De Costas para o Mar") já era conhecida desde 1982, qdo foi publicada pela Ed. Brasiliense (coleção Encanto Radical), e se trata duma biografia de Noel em formato de livro de bolso. A primeira parte, q é tb o próprio título do livro, é a dissertação de mestrado do autor (na USP), escrita em 1988 e até então inédita em livro. Como esse material ficou assim, inédito até agora, penso q a visão de Caldeira poderia ter tido um aproveitamento mil vezes melhor caso tivesse utilizado uma base teórica de peso e/ou seguido orientações de alguma linha nos atuais estudos culturais. Como está, ela se assemelha bastante às incursões ao tema dos jornalistas q criaram a "MPB" nos anos 1960 (Sérgio Cabral, Ary Vasconcellos, José Ramos Tinhorão et al.). Desta forma, comparando-a ao meu Auxílio Luxuoso, reconheço publicamente q Caldeira teve a iluminação de se referir em primeira mão ao fenômeno "midiático" da música popular no Brasil em sua expressão mais próxima do comercial e das relações profissionais existentes entre os artistas (músicos, intérpretes etc), seus agentes e a indústria cultural propriamente dita. Por todos os motivos aqui relacionados, o livro de Jorge Caldeira é muito importante para os estudos sobre música popular no Brasil (bem mais q quaisquer outros títulos daqueles jornalistas citados), como aliás o são todas as suas brilhantes intervenções na mídia falada e escrita desse nosso país.].